O Luto como Reafirmação da Presença

O Luto como Reafirmação da Presença

A pintura se transforma como todas as coisas e essas transformações tem interessado as pessoas que pensam a arte. Algumas vezes essas transformações tem sido associadas a alguma forma de morte, mas como essa mudança pressupõe uma continuidade, o que viria depois da morte seria um renascimento ou uma reencarnação como foi colocado recentemente por Angélica de Moraes. Parece que Yves- Alain Bois em seu texto intitulado Painting: The Task of Mourning conseguiu achar uma palavra que explicasse melhor as transformações da pintura. Neste texto Bois olha para a pintura e vê uma vocação para o luto, não só o luto por uma morte, mas um luto constante que se renova a cada década. A propósito da obra de Philip Taaffe, Bois diz que os poderia chamar (Philip e outros artistas americanos da mesma geração) de “enlutados maníacos”. O interessante do termo luto utilizado por Bois é que o termo pressupõe um enlutamento pelo outro, e no caso da pintura a tarefa do luto que se refere o titulo é um luto por si mesmo. Seria como se a pintura enlutasse por um pedaço de si mesma que morreu, mas não só o seu todo. Como uma árvore que é podada para se fortalecer. O interessante do uso dessa palavra para a pintura é que ela contem o conceito de morte e a vida ao mesmo tempo, quem se enluta se enluta pelo outro que morreu, mas para existir luto tem que ter alguém vivo.
A pintura de Ana Álvares tem sintetizado a busca pela transformação e assumido essa operação como sua principal problemática pictórica. Sua pintura se transforma por uma espécie de acúmulos de subtrações sucessivas. Nos anos 90 Ana trabalhou com pinturas recobertas por camadas de tinta branca opaca de modo a quase chegar a uma imagem totalmente vazia. Em seguida suas imagens foram compostas por grades feitas com aplicação de flores bordadas. Esse aparente esvaziamento que parecia apontar para o fim de um caminho, para uma morte, acabou se firmando mais pela presentificação de seus elementos do que pela ausência deles. Recentemente Ana tem trabalhado com pinturas vermelhas com poucas formas e tons. Mais uma vez a redução está presente, e a contradição que esses termos colocam também. As pinturas vermelhas inicialmente eram imagens de arvores onde o corpo tinha um peso maior do que se tratar de uma mancha opaca em comparação a representação do tronco feito por linhas quase como cabelos finos que dançam na superfície da tela crua. Essas manchas vermelhas forma aumentando e atualmente ocupam quase toda a tela. Em alguns momentos é possível ver elementos por baixo das manchas como linhas ou grafismos, mas se percebe que a ênfase não é na presença, mas no ocultamento desses elementos.
A pintura carrega em si mesmo uma trama de contradições, como um nó ou um labirinto. Talvez a contradição mais interessante da pintura em geral, seja que quanto menos pintura uma pintura for, mais pintura ela será. No caso da pintura de Ana Álvares a sua despretensão, a reafirmação de elementos através da ausência, o equilíbrio entre o fim e o começo, colocam a tarefa do luto como disse Bois como uma afirmação mais sobre a presença e menos sobre a morte, uma pintura que fortalece pela sua redução e que fica maior quando diminui seus elementos.

Sergio Romagnolo
Junho 2004

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